Estado de Graça
Quem já conheceu o estado de
 graça reconhecerá o que vou dizer. 
Não me refiro à inspiração, 
que é uma graça especial
 que tantas vezes acontece 
 aos que lidam com arte. 
O estado de graça de que 
falo não é usado para nada.
 É como se viesse apenas para 
que se soubesse que realmente se existe.
Nesse estado,
 além da tranquila felicidade
 que se irradia de pessoas e coisas,
 há uma lucidez que só chamo 
de leve porque na graça
 tudo é tão, tão leve. 
E uma lucidez de quem
 não adivinha mais: sem esforço, sabe.
 Apenas isto: sabe. 
Não perguntem o quê, 
porque só posso responder
 do mesmo modo infantil: 
sem esforço, sabe-se.
E há uma bem-aventurança 

física que a nada se compara.
 O corpo se transforma num dom.
 E se sente que é um dom porque se está experimentando,
 numa fonte direta, 
a dádiva indubitável de existir materialmente.
No estado de graça vê-se às vezes

 a profunda beleza,
 antes inatingível, de outra pessoa.
Tudo, aliás, ganha uma espécie
 de nimbo que não é imaginário: 
vem do esplendor da irradiação 
quase matemática das coisas
 e das pessoas. Passa-se a sentir que tudo o que existe
 — pessoa ou coisa — 
respira e exala uma espécie de finíssimo
 resplendor de energia. 
A verdade do mundo é impalpável.

Clarice Lispector, 

in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1968)'